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Neurociências - 25/04/2007
 

Uma pequena dose de morfina pode ser suficiente para bloquear a capacidade cerebral de fortalecer as conexões das sinapses inibitórias, de acordo com um novo estudo da Universidade Brown publicado na revista Nature. Os achados contribuem para o fortalecimento de uma nova teoria, segundo a qual os vícios seriam um distúrbio do aprendizado e da memória. A pesquisa também pode ajudar a explicar a origem dos mecanismos cerebrais relacionados às substâncias com potencial de causar vício.

        

         "Nós conseguimos mostrar que a morfina provoca alterações cerebrais persistentes bloqueando um mecanismo considerado a chave para a formação da memória. Esses achados reforçam a noção de que os vícios constituem uma forma de aprendizado patológico", afirma Julie Kauer, cientista da Universidade Brown.

 

         Em seus experimentos com ratos, ela descobriu que a potenciação de longo prazo (LTP, do inglês long-term potentiation), um mecanismo neurofisiológico fundamental para a consolidação da memória, pode ser bloqueado por uma pequena dose de morfina. O impacto da droga foi poderoso: o bloqueio da LTP persistiu por até vinte e quatro horas após a administração da substância, tempo muito superior à eliminação da droga pelo organismo. O fenômeno foi observado na área tegmentar ventral, uma pequena região do mesencéfalo que reforça comportamentos de sobrevivência, como o de comer ou o de desejo sexual.

 

A pesquisadora observou que as sinapses afetadas foram aquelas entre neurônios inibitórios e neurônios dopaminérgicos. No cérebro normal, as células inibitórias limitam a liberação de dopamina, a "substância do prazer" liberada naturalmente durante experiências gratificantes. Drogas como o álcool e a cocaína também aumentam a liberação de dopamina.

        

         O efeito da morfina e de outros opióides relaciona-se então ao aumento da resposta de recompensa cerebral. "É como se um freio fosse removido e as células dopaminérgicas começassem a disparar", explica a pesquisadora. "Esta atividade, combinada com outras alterações cerebrais proporcionadas pelas drogas, pode aumentar a susceptibilidade ao vício".

 

         Kauer e sua equipe registraram não apenas as alterações celulares provocadas pela morfina, mas também alterações moleculares. Os pesquisadores conseguiram identificar a molécula inativada pela morfina: a guanilato ciclase. Esta enzima, ou os próprios neurônios inibitórios, poderiam constituir alvos efetivos para a ação de drogas para a prevenção ou tratamento do vício.

 

Fonte: Nature        

 
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